
Rucelmar Reis
Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.
Na Veia
Seu próximo chefe deve ser um algoritmo urbano
Estou em Barcelona, como falei no meu último texto, e, já no primeiro dia da Smart City Expo World Congress (SCEWC), nesta quinta-feira (6), vi algo diferente: a transição de smart cities de um conceito de dashboards bonitos para uma realidade de automação total.
Se você pensava que as cidades inteligentes eram apenas sobre Wi-Fi público e aplicativos de transporte, prepare-se para evoluir a forma de ver o que uma cidade pode de verdade interferir na vida do cidadão. O que está sendo discutido aqui não é mais sobre tecnologia, mas sobre poder. E esse poder está sendo transferido para agentes autônomos.
O fim do semáforo burro
O trending topic que domina os corredores é a ascensão das Cidades Habilitadas por IA e dos Gêmeos Digitais Urbanos.
Não estamos falando de um assistente virtual que te diz a hora do ônibus. Estamos falando de um sistema que opera a cidade.
Gêmeos Digitais Urbanos (UDTs) são a ferramenta que torna isso possível. Eles criam réplicas virtuais da cidade para simulações em tempo real, permitindo que gestores tomem decisões preditivas sobre tráfego, energia e até mesmo alocação de recursos em desastres. O UDT não apenas vê o engarrafamento; ele decide mudar a frequência do semáforo, desviar rotas e otimizar o consumo de energia em tempo real.
Aqui está o insight que você precisa absorver: De alguma forma, teremos um novo chefe, o responsável por decidir se você chega no horário no trabalho, se o lixo é recolhido na sua rua ou se o ônibus passa no seu ponto, será um algoritmo.
O dilema da governança: quem manda no algoritmo?
A transição de "cidades de dados" para "cidades de decisão" levanta uma questão importante: quem é o dono do agente urbano?
Se a IA passa a operar a mobilidade, a segurança e os resíduos, as decisões sobre a sua vida deixam de ser tomadas por um candidato eleito e passam a ser tomadas por um código. Isso é positivo ou negativo?
A Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) e diversas instituições já alertam para a necessidade urgente de Governança Responsável da IA. O debate aqui em Barcelona não é se a IA deve ser usada, mas como, e quem fica com a chave do cofre. Exemplos de questões levantadas:
• Viés Algorítmico: O algoritmo que decide a alocação de segurança é neutro ou ele perpetua um viés social?
• Transparência: Como auditar uma decisão tomada por uma "caixa-preta"? O cidadão tem o direito de saber o porquê de uma decisão que afeta sua vida.
A promessa de eficiência é sedutora, mas a possibilidade de ausência de transparência é o preço caro da liberdade. E não estou fazendo o papel aqui da crítica por crítica. O avanço proposto é significante e pode trazer muitos benefícios. A questão é que até o odiado imposto poderia ser algo bom, se tivesse o uso adequado. E isso também se aplica a IA. Então, a discussão não é nova. Muda apenas o tema.
O foco no trivial: habitação e o fim do "NIMBY"
Outro trending topic que me chamou a atenção é a Habitação como pilar de smart city.
Enquanto a IA e os Gêmeos Digitais parecem ficção científica, e talvez acessível apenas a poucas cidades, a habitação é o problema mais real e urgente. A tecnologia está sendo aplicada para resolver o problema da burocracia: licenciamento digital, uso de dados abertos de estoque e aluguel, e incentivos ao adensamento perto de transporte.
O foco é usar a tecnologia para acelerar a entrega de moradias e combater o "NIMBY" (Not In My Backyard), a resistência local a novos empreendimentos. A tecnologia, neste caso, está a serviço de um outcome social, forçando a política pública a ser mais eficiente. No Brasil, também estamos implementando Cadastros de Imóveis e essas informações poderão ser mais bem usadas daqui para frente.
A escolha que define o futuro
Vou resumir o primeiro dia da SCEWC: mostrou que o futuro não está chegando; ele já está operando.
A pergunta que levo para o segundo dia não é se sua cidade será inteligente. Vai ser cada vez mais.
A pergunta é: estamos prontos para sermos governados por um algoritmo?
Eu acho que a verdadeira inovação não está na tecnologia, mas na coragem de exigir que essa tecnologia sirva à democracia e à liberdade, e não apenas à eficiência e ao controle.



