
Rucelmar Reis
Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.
Na Veia
Fim da Era do "Boa Gente" na Empresa
Em todas as viradas e revoluções que presenciei, o padrão se repetiu: o mercado não tem paciência para a nostalgia. Aconteceu de novo. Mas dessa vez, a pancada veio de onde muitos consideravam o templo da cultura corporativa intocável.
Em abril de 2026, a Disney demitiu 1.000 pessoas. O detalhe chocante? Ao contrário do que se pode pensar, a empresa não estava sangrando. Pelo contrário. A receita anual havia subido para 94 bilhões de dólares. O streaming, que era o calcanhar de Aquiles, virou lucrativo. Os parques bateram recordes, ultrapassando 10 bilhões em um único trimestre. Eles estavam recomprando 8 bilhões em ações. E, mesmo assim, quando todos entendiam que o momento era muito positivo, a guilhotina desceu. Até um artista veterano, com 16 anos de casa, que desenhou os primeiros traços do Capitão América, foi demitido por e-mail.
Mas o que poderia estar por trás dessa decisão? Por que uma empresa que está ganhando o jogo decide cortar na carne?
O novo CEO da Disney explicou em um memorando interno, e a frase dele resume o espírito do nosso tempo: "Precisamos de uma força de trabalho mais ágil e tecnologicamente capacitada". Não vou entrar no mérito de que quem escreve algo sob trabalho moderno acaba por escolher um memorando para se comunicar. Mas ok.
Na real, isso significa o seguinte: a cultura antiga, aquela do tempo de casa como escudo protetor, não cabe mais no novo jogo. A Disney percebeu que uma empresa pesada, com pessoas desaculturadas da nova realidade tecnológica, é uma bomba-relógio. O "jeitinho" corporativo, de manter quem não se adapta apenas por apego ao passado, acabou.
Isso não é exclusividade da Disney. Olha o padrão: a Meta cortou 21.000 pessoas em dois anos. O Google demitiu 12.000. A Microsoft e a Amazon enxugaram estruturas inteiras, mesmo batendo recordes de lucro. Isso não é crise financeira. É reengenharia cultural.

Estamos vivendo uma redistribuição de competências. A IA e as novas tecnologias não vieram apenas para automatizar tarefas repetitivas. Elas vieram para elevar a barra do que significa ser um profissional útil. Em todos os níveis, do estagiário ao conselho de administração, a integração com a tecnologia deixou de ser um diferencial para ser o oxigênio da operação.



