
Rucelmar Reis
Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.
Na Veia
Como reter quem não quer subir a escada, mas quer escalar a montanha
Por muito tempo, a gente mediu o engajamento dos colaboradores pela régua da promoção e tempo de casa. Se ficou, e foi promovido, então cresceu e se engajou. Se saiu? Então ele que não aguentou ou não era a pessoa certa. Muitos tinham essa visão simples. A escada corporativa era o único caminho que se oferecia, e quem não quisesse subir por ela que fosse embora.
Aí vem o ponto que muda tudo hoje. A geração Z não quer a escada. Ela quer a montanha inteira.
Vamos aos fatos. A Deloitte entrevistou mais de 22 mil jovens em 2026 e o resultado derrubou um mito que muita empresa ainda carregava ou carrega: apenas 25% dos Gen Z querem progressão rápida com promoções aceleradas. A maioria quer crescimento gradual, com aprendizado real e desafios novos. Eles não estão pedindo para virar gerente em dois anos. Estão pedindo para aprender coisas diferentes, trabalhar em projetos variados e desenvolver habilidades que o mercado vai valorizar daqui a cinco anos. Mas a pergunta que podemos ouvir deles, de quanto tempo demora para ser gerente, não é ansiedade. É um pedido de visibilidade.
Eles aceitam muito bem também o crescimento lateral. Crescimento lateral é quando a empresa oferece ao profissional a possibilidade de se mover horizontalmente, assumir projetos em áreas diferentes, aprender novas ferramentas, participar de squads multidisciplinares, sem necessariamente mudar de cargo ou de salário. Para a minha geração, isso parecia estagnação. Para a Geração Z, é exatamente o que eles querem.
A Randstad mostrou em 2025 que a falta de progressão de carreira é o segundo maior motivo de saída dos Gen Z, logo atrás do salário. Mas progressão para eles não é título. É aprendizado. Quando a empresa para de oferecer desafios novos, eles interpretam isso como sinal de que chegaram no teto. E quem chega no teto, sai.
Então, vamos lá: O que a empresa precisa fazer para aproveitar melhor essa característica dessa geração?
O primeiro movimento é criar trilhas de desenvolvimento que não dependam necessariamente de promoção vertical. Um jovem de 23 anos pode ser referência técnica em uma área sem precisar virar gestor. Pode liderar um projeto sem ter subordinados. Pode ensinar o que sabe sem ter um cargo de sênior. Quando a empresa reconhece isso formalmente, ela transforma o crescimento lateral em ativo estratégico.
O segundo movimento é investir em formação de verdade. A Randstad mostrou que 75% dos Gen Z usam IA para aprender novas habilidades, mais do que qualquer outra geração. Eles já estão se desenvolvendo por conta própria. O que a empresa precisa fazer é entrar nessa conversa. Oferecer cursos, certificações, acesso a plataformas de aprendizado, tempo dentro do expediente para estudar. Não como benefício. Como parte do trabalho. Opa, mas não era essa geração que não se dava tão bem com a IA como as gerações anteriores? Sim, isso é verdade. Mas, apesar de ela não ter o repertório e experiência das gerações anteriores para criar prompts mais elaborados e informativos, essa geração não tem medo de usar a IA, e aceita essa realidade como quase nativa na sua forma de pensar. Para eles, tudo precisa ser lógico.
O terceiro movimento é dar propósito ao trabalho do dia a dia. Não o propósito do discurso do CEO na reunião de resultados ou naquela festa de fim de ano. O propósito da tarefa que a pessoa faz toda semana. Quando o gestor explica por que aquele relatório importa, para quem ele vai, o que muda quando ele é bem-feito, ele transforma uma tarefa operacional em contribuição real. Isso custa zero e retém mais do que qualquer benefício.

O quarto movimento é conversar antes de perder. A entrevista de desligamento chega tarde demais. O problema já foi embora. O que funciona é a conversa preventiva, duas vezes por ano, com duas perguntas simples: o que faria você ficar mais dois anos com a gente? E o que faria você pedir as contas amanhã? Quem responde a segunda pergunta com facilidade já está saindo. Quem responde a primeira com entusiasmo ainda tem energia para dar.
O quinto movimento é o mais barato e o mais ignorado: reconhecimento semanal e específico. A Gallup mostrou que reconhecimento semanal aumenta engajamento em até 36%. Não o elogio genérico. O reconhecimento que diz: o que você fez na quinta-feira com aquele cliente evitou um cancelamento e por isso você vai entrar no projeto novo na semana que vem. Isso é a mensagem certa, na hora certa.
O custo de não fazer nada disso já teve alguém que calculou. A Flash e a FGV-EAESP estimam que o desengajamento custa ao Brasil mais de 77 bilhões de reais por ano. Cada pessoa que sai antes de completar um ano leva consigo o equivalente a dois salários em custo de reposição. E a Randstad mostrou que 22% dos Gen Z já saíram de um emprego em menos de doze meses, quase o dobro dos Millennials.
Reter essa geração não é sobre criar um ambiente confortável. É sobre criar um ambiente onde a pessoa sente que está se tornando melhor a cada semana. Onde ela tem desafios novos antes de pedir para sair. Onde ela vê o próximo capítulo antes de fechar o livro.
Se você entender isso vai parar de perder os melhores colaboradores para o concorrente. Quem não entender vai continuar achando que o problema é da geração.



