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Estamos evoluindo com a IA ou desaprendendo a pensar? Créditos: Reprodução

Rucelmar Reis

Rucelmar Reis

Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.

Na Veia

Estamos ficando mais burros?

19/05/2026 09:57
Eu vivi a revolução da informática quando os computadores ainda eram caixas misteriosas que ocupavam salas inteiras. Convivi com a chegada da internet, quando o barulho do modem discado era a trilha sonora da conexão com o mundo. Mergulhei de cabeça nos negócios digitais quando vender online parecia feitiçaria para a maioria das empresas. Em todas essas ondas, vi a mesma coisa acontecer. Uma revolução brutal no pensamento, nas ações, nos negócios e na sociedade. 
Sempre fui movido pela curiosidade. Minha regra era simples e direta: aprender tudo sobre o que estava mudando o jogo. Não será diferente agora, com a Inteligência Artificial. 
Olhando para trás, vejo quantos ficaram pelo caminho. A cada nova onda, sempre havia quem preferisse a segurança do passado. As falas se repetem. Diziam que os computadores iam acabar com o pensamento. Que a internet ia isolar as pessoas. Que o comércio eletrônico ia destruir as lojas. Agora, a ladainha é que a IA vai nos emburrecer e roubar todos os nossos empregos. 
É igual às revoluções passadas? Não. A IA é muito mais profunda e avança numa velocidade que nunca experimentamos. A função dela na sociedade segue a mesma lógica de separar quem está disposto a arregaçar as mangas e se inserir no novo contexto de quem prefere sentar e tentar achar motivos e teorias da conspiração para não fazer parte da revolução.
Confesso que o que realmente me tira o sono não é a máquina. É a postura de uma parte considerável da nova geração.
Ao contrário das revoluções anteriores, onde os jovens eram a vanguarda natural, vejo muitos deles hoje numa passividade assustadora. Parecem não entender a avalanche que está passando por cima deles. 
Nessa linha, curiosamente, são os mais maduros, a turma que já tomou mais pancada na vida e no mercado, que estão mergulhando fundo e tirando maior proveito desse momento.
A que se deve isso? A resposta está na capacidade cognitiva de orientar, formular projetos e trabalhar junto com esses novos agentes digitais. É uma geração passada que tinha que planejar para construir e construir para ter. 
Nós, da geração mais madura, fomos forjados na escassez. Aprendemos cedo que, para ter a recompensa, era preciso agir, cavar, construir. É exatamente essa mentalidade que a IA potencializa. Ela se integra perfeitamente com quem sabe agir e formular. 
Já a nova geração cresceu acostumada a receber tudo mastigado. É o consumo imediato, o clique fácil, a dopamina alta em vídeos de quinze segundos. Tudo de graça e sem esforço. O problema é que a IA, por mais inteligente que seja, não faz milagres sozinha. Ela precisa de direção. Ela exige que você saiba o que perguntar, como estruturar um problema e onde quer chegar, corrigindo caminhos e direcionando novas opções.
Os dados científicos confirmam essa percepção de campo. O famoso estudo norueguês de 2018 que apontou uma queda de três pontos no QI médio por década [1] não provou que estamos ficando mais burros geneticamente. O que pesquisadores americanos descobriram em 2023 é que o que está caindo é exatamente o que a IA faz melhor. O raciocínio lógico-matemático e o processamento de padrões [2]. 
Em outras palavras, a máquina automatizou a inteligência de fábrica. 
Como apontam os especialistas do MIT e pesquisadores da Universidade de Barcelona, a IA tropeça feio na criatividade genuína e no pensamento divergente [3]. Em testes de resolução de problemas fora do padrão, os humanos ainda dão uma surra nas máquinas. A IA gera muitas ideias, mas nós geramos as ideias originais [3].
Isso significa que a nossa inteligência não está sumindo. Ela está se redistribuindo. O "manifold positivo", a ideia de que quem é bom em lógica também é bom em linguagem, está enfraquecendo [4]. Estamos nos tornando especialistas em um mundo onde a máquina cuida do trabalho pesado e repetitivo. 
Aqui voltamos ao ponto central. Essa redistribuição só favorece quem tem repertório. Quem tem bagagem para conectar pontos distantes. Quem sabe olhar para um problema complexo e orquestrar agentes de IA para resolvê-lo. 
Caminhamos rapidamente para uma sociedade onde deixaremos de ser a multidão que consome para nos tornarmos os mestres de bilhões de agentes autônomos. Plataformas, programação tradicional, compilação de dados, tudo isso vai virar commodity. A linguagem natural será a única interface. 
Mas, o futuro profissional ainda é muito incerto.  Que se sabe é que se essa geração jovem não tiver o domínio da IA como a geração mais madura está buscando ter, o cenário muda de figura. Isso significa que, se por um lado não vamos enfrentar um emburrecimento social literal, teremos pelo menos uma maior dependência e uma grave falta de criatividade da próxima geração de profissionais. 
Isso pode ser uma involução dentro de uma revolução. Será diferente do que vivemos hoje nessa relação com a IA. Mas há quem defenda que isso proporcionará uma população mais preocupada em ser do que em fazer. Mais preocupada em viver do que em ter. E nisso a IA pode até ajudá-los, facilitando a vida cotidiana. Mas talvez a raça humana possa estar desperdiçando a revolução mais fantástica já tida. Usarão os robôs e as IAs apenas para fazer uma receita de bolo ou saber o horóscopo do dia. Ou quem sabe, é a minha geração que não aprendeu a usar as máquinas como deveria e quer ter sempre o controle de tudo. Quem está certo? O tempo dirá. Mas não em décadas. Em anos, ou até menos, pois o que temos certeza é que as transformações estão cada vez mais rápidas e impactantes.
No meu ponto de vista, se a IA não for conduzida, conduzidos seremos. Não existe vácuo nesse universo. 

Referências

[1] Bratsberg, B., & Rogeberg, O. (2018). Flynn effect and its reversal are both environmentally caused. Proceedings of the National Academy of Sciences. URL: https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1718793115 
[2] Dworak, E. M., et al. (2023). Looking for Flynn effects in a recent online U.S. adult sample: Examining shifts within the SAPA Project. Intelligence. URL: https://www.sciencenorway.no/health-intelligence-iq/our-iq-is-steadily-declining/2180595 
[3] Rondini, S., et al. (2026). Stable Diffusion Models Reveal a Persisting Human–AI Gap in Visual Creativity. Advanced Science. URL: https://www.neurociencies.ub.edu/human-creativity-still-surpasses-ai/ 
[4] Oberleiter, S., et al. (2025). Generational IQ test score changes and the positive manifold of intelligence: evidence from Austrian Air Force pilots and air traffic controllers (1992–2016). Frontiers in Psychology. URL: https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2025.1547520/full