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No mercado de trabalho, experiência prática e repertório fazem diferença. Profissionais que resolvem problemas se destacam além do currículo. Crédito: Felicia Manolache.

Allan Costa

Allan Costa

Allan Costa é empreendedor, investidor-anjo, mentor, escritor, motociclista e palestrante em dois TEDx e em mais de 100 eventos por ano. Co-fundador do AAA Inovação, da Curitiba Angels e Diretor de Inovação da ISH Tecnologia. Mestre pela FGV e pela Lancaster University (UK), e AMP pela Harvard Business School.

Você, amanhã

Profissional bom é aquele que dá seus pulos

31/03/2026 09:00
Venho pensando muito no que torna um profissional excepcional; e não, não acho que sejam as certificações nem as qualificações técnicas, embora todas essas coisas ajudem bastante.
Recentemente, conversava com um jovem profissional que acaba de chegar de um período fora. Depois de 4 anos e um doutorado nos Estados Unidos, ele voltou para o Brasil e estava enfrentando algumas dificuldades no mercado de trabalho – o famoso choque de realidade.
O diploma de uma faculdade americana certamente estava sendo um diferencial importante para que ele conseguisse entrevistas de emprego, mas não estava sendo suficiente para que ele conseguisse se desempenhar bem no dia a dia corporativo. O que estava acontecendo, então?
Bem, as hipóteses são várias. Mas o que eu percebi sobre esse jovem é que ele se valia muito do próprio currículo acadêmico e se esqueceu de que não é o diploma que executa os trabalhos e resolve os perrengues do cotidiano. E é aí que eu quero chegar.
Ter uma qualificação técnica é importante e ajuda bastante, mas, no mundo profissional, o que vamos fazer dia sim, dia também, é descascar abacaxis dos mais variados tamanhos. E isso, infelizmente, não existe curso no mundo que ensine. Porque cada abacaxi é único e vem com um nível de complexidade diferente. A academia vai te dar um glossário de termos e um norte, mas não vai conseguir suprir a experiência prática de lidar com cadeias infinitas de problemas que precisam ser resolvidos simultaneamente.
E você só aprende a resolver problemas… resolvendo problemas; não tem muito segredo.
Acho que o profissional que é um resolvedor de problemas, ou o famoso "desenrolado", não tem o currículo tão chamativo quanto o ex-aluno do MIT, mas com certeza brilha tanto ou mais no longo prazo.
O que diferencia esse profissional desenrolado é justamente a vivência na solução de problemas – grandes ou pequenos – no seu próprio dia a dia. E você só cria esse tipo de casca se colocando no mundo e se arriscando, sem o objetivo necessariamente de ganhar, mas de aprender.
Joelho ralado é didático. Infelizmente, ou não, passar o dia com a cara enfiada em telas não nos ensina a lidar com o mundo e, portanto, não nos ensina a resolver problemas. E isso não vale só para os jovens. Tem muito adulto que parou de se colocar em situações novas porque caiu na zona de conforto.
Ter outras referências, ouvir outras músicas além daquelas que você ouve desde a adolescência, sair para conhecer novos lugares, passar um ou outro perrengue e ouvir as experiências de outras pessoas cria um repositório criativo que ajudará na hora de enfrentar situações difíceis.
Quando alguém com repertório amplo se depara com um desafio, ela não reage apenas com técnica; reage com analogia, com intuição, com sensibilidade contextual adquirida em situações anteriores. Muitas vezes, a solução vem de um lugar aparentemente aleatório: uma conversa antiga, um livro fora da área, uma experiência aparentemente desconectada.
Quem limita sua formação ao campo estritamente técnico e acadêmico tende a operar de maneira muito previsível. Consegue executar bem tarefas conhecidas, mas encontra dificuldade quando o problema foge do script. E, no mundo real, em que as variáveis mudam o tempo todo, a previsibilidade pode não ser uma característica positiva para solução de casos complexos.
Este é o problema de contar somente com cartilhas ou livros didáticos. O que eles nos apresentam são possibilidades, exemplos de situações, mas jamais conseguiram apresentar todas as variáveis possíveis de um mesmo problema e como resolvê-las.
Para isso, tem que sair. Tem que parar de deslizar o dedo infinitamente pela tela do celular. Tem que se forçar a pensar em outras maneiras de fazer a mesma coisa. Só isso vai te forçar a ter leituras diferentes de um mesmo problema.