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Rucelmar Reis

Rucelmar Reis

Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.

Na Veia

Reforma Tributária: A Pancada Final (2029-2033)

27/01/2026 11:50

Morte Lenta do ICMS e ISS (2029-2032)

Imagine dirigir um carro com dois volantes por quatro anos. É exatamente isso que vai acontecer. De 2029 a 2032, o IBS (o imposto estadual/municipal) vai crescer progressivamente, enquanto o ICMS e o ISS (os monstros que aprendemos a odiar) serão reduzidos na mesma proporção.

Na prática, isso significa:

  • Dupla Apuração: Sua equipe contábil vai ter que calcular e pagar os dois sistemas. O custo de conformidade vai para a estratosfera. O risco de erro é dobrado.
  • Guerra de Sistemas: Seus sistemas de ERP e faturamento precisarão ser robustos o suficiente para lidar com alíquotas que mudam todo ano, em uma dança complexa entre o que morre e o que nasce.
  • Precificação Dinâmica: Como você precifica seu produto ou serviço quando a carga tributária muda anualmente? O planejamento estratégico se torna um exercício de futurologia.
Essa é a fase do "purgatório fiscal". O inferno do sistema antigo ainda existe, e o céu do sistema novo ainda não chegou. É o momento em que a organização e a tecnologia que você implementou lá em 2026 vão separar quem se preparou , daqueles que foram “surpreendidos”.

2033: O Fim de uma Era (E o Começo de Outra)

Finalmente, em 1º de janeiro de 2033, o ICMS e o ISS são oficialmente extintos. O Brasil entra de vez no clube dos países com um IVA moderno. O sistema antigo, com sua sopa de letrinhas e suas mil exceções, vira peça de museu.
No papel, é lindo. Um sistema simplificado, transparente, que não onera investimentos e exportações. Mas aí vem a pergunta de R$ 1 trilhão.

O Risco da Arrecadação vs. A Reforma Econômica

A grande promessa da Reforma Tributária nunca foi apenas simplificar. Foi destravar o crescimento do Brasil. A expectativa é que um sistema mais eficiente gere um crescimento adicional do PIB, atraia investimentos e formalize a economia.
Mas qual o risco de tudo isso ser apenas uma miragem? O risco é a reforma ser usada como um mero instrumento de arrecadação diferente. Ou seja, o governo descobre que o novo sistema é tão eficiente em cobrar imposto que a tentação de aumentar a alíquota para cobrir rombos fiscais se torna irresistível.
Se a carga tributária final, somando CBS, IBS e Imposto Seletivo, for maior do que a atual, a reforma terá falhado em seu propósito econômico. Teremos um sistema mais simples para pagar mais imposto. É como trocar uma carroça por um carro de Fórmula 1, mas só para andar na mesma estrada esburacada.

O Problema do Lobby e dos Interesses Setoriais

E aqui entra o maior inimigo de qualquer boa ideia no Brasil: o lobby. A beleza do IVA é sua simplicidade e neutralidade. Mas a cada setor que consegue um benefício, uma alíquota reduzida, um regime especial, um pedaço dessa simplicidade morre.
Já vimos isso acontecer. Setores como saúde, educação, agronegócio e transporte já garantiram suas benesses. A pergunta é: onde isso para? Qual a probabilidade de futuros governos, pressionados por seus financiadores de campanha e por grupos de interesse, não descaracterizarem a reforma a ponto de ela virar uma nova colcha de retalhos?
Cada exceção é um prego no caixão da eficiência. Cada privilégio setorial é um convite para que o seu concorrente também peça o dele. Se não houver uma blindagem política e uma consciência de que o interesse do todo supera o da parte, corremos o risco de, em 2033, termos um sistema tão complexo quanto o que acabamos de enterrar.

O Dia Seguinte: O Que Sobra Para o Empresário?

Depois de 2033, o jogo muda. A competição não será mais sobre quem tem o melhor malabarista fiscal. Será sobre quem tem o melhor produto, o melhor serviço, a melhor logística. A eficiência tributária será uma commodity.
O empresário que sobreviver a essa jornada terá que ser mestre em gestão, inovação e estratégia. O contador deixará de ser um "preenchedor de guias" para se tornar um analista de dados e um parceiro estratégico vital.
O desafio é imenso, mas a oportunidade também. A Reforma Tributária, se bem executada e protegida dos abutres de sempre, pode finalmente permitir que o empresário brasileiro foque no que ele faz de melhor: gerar riqueza.
Mas, para isso, a vigilância da sociedade e a coragem de dizer "não" aos interesses menores serão tão importantes quanto a própria lei. A reforma não é um destino. É uma escolha que teremos que fazer todos os dias, de agora até 2033 e além. Participar dos debates, estar em contato com quem pode ainda definir alguns destinos, é uma prática muito importante, que recomendo a todos.