Eu vejo muita gente por aí falando de Governança Corporativa como se fosse um bicho de sete cabeças. Um manual chato, cheio de regras, um custo a mais para a empresa. Uma burocracia que engessa, que tira a agilidade. Bobagem. Pura e simples bobagem. OK, o nome não ajuda muito, pois quando se fala em algo Corporativo se imagina algo burocrático e cheio de regras. Por isso, costumo adotar a linha da Governança Empresarial, adaptada a qualquer porte de empresa.
Mas, o que não te contaram é que Governança não é sobre papelada. É sobre controle mínimo necessário. É sobre ter elementos para a decisão. E, na sua essência mais crua, o resumo de duas coisas: Fóruns e Ritos.
Pense comigo: onde as decisões importantes são tomadas? Em reuniões. Em conselhos. Em comitês. Certo? Então... esses são os Fóruns. E como essas decisões são tomadas? Com que frequência? Com que pauta? Quem participa? Como se presta contas? Esses são os Ritos.
O resto é ruído. Sem esses dois elementos da Governança bem definidos, a chance de estar se criando um monstro burocrático, é grande. O que eu vejo muitas vezes é a tentativa de complicar o simples para justificar a existência de consultores e manuais que ninguém lê. Mas eu, particularmente penso que: se você domina os Fóruns e os Ritos, você domina a Governança. E se você domina a Governança, você domina o controle necessário.
Mas é aqui que muitos se perdem e a Governança se revela, não como um manual, mas como um organismo vivo. E, como todo organismo, pode adoecer. Quando a governança não funciona, quando ela mais engessa do que impulsiona, o problema não está na sua existência, mas na sua execução. Está nos Fóruns que se tornam palcos de vaidades, onde se reúnem os que não tem poder para decidir ou se excluem os que detêm o poder real de ação, transformando discussões em ruído corporativo.
Está também nos Ritos que se perdem em empresas, que são verdadeiras fábricas de reuniões, em cadências desproporcionais à urgência do mercado, ou que se sobrepõem comandos, diluindo a autoridade e a capacidade de resposta. É nesse ponto que a governança de fachada, aquela que apenas "cumpre tabela", se torna um peso morto, um obstáculo intransponível à gestão. A diferença entre uma empresa que voa e outra que patina está na visceralidade com que se desenham e se respeitam esses Fóruns e Ritos, garantindo que a arquitetura de controle seja um motor, e não uma âncora.
O IBGC, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, que é uma das maiores autoridades no assunto, atualizou seus pilares. E eles são a prova viva do que estou falando. Não são conceitos etéreos; são a materialização do que acontece (ou deveria acontecer) nos seus Fóruns e Ritos. Vamos destrinchar um pouco esses pilares:
1. Integridade
É um novo pilar. E o que significa? Não é só não roubar, meu caro. É a cultura da verdade. É a coerência entre o que se fala e o que se faz (Walk the talk). Onde isso se manifesta? Nos Ritos de Conduta. Nas reuniões onde a decisão é impopular, mas é a certa. Nos Fóruns de Compliance que não são apenas para inglês ver, mas para julgar e corrigir desvios. É a lealdade à organização e a todas as partes interessadas, não só ao bolso do acionista. Sem Fóruns e Ritos que exigem essa verdade, a integridade vira um mero slogan na parede.
2. Transparência
Não é só publicar balanço, por favor. É a informação que flui. Verdadeira, tempestiva, clara, e a todos que possa interessar. Não só o que a lei exige, mas o que o negócio precisa para prosperar. Isto é Rito de Divulgação. Nas atas de reunião que são claras e acessíveis. Nos Fóruns de Relações com Investidores que não escondem o problema, mas o endereçam. É a confiança que se constrói quando não há sombra, quando o Fórum decide e o Rito comunica sem meias palavras. Inclusive os fatores ESG, que hoje são tão críticos quanto o financeiro.
3. Equidade
Tratar todos de forma justa. Muitos entendem que esse pilar significa igualdade. Não. É reconhecer que cada um tem sua contribuição, sua necessidade. Onde isso se pratica? Nos Fóruns de Sócios que ouvem o minoritário. Na voz do funcionário. Nos Ritos de Inclusão que garantem que a diversidade não é só um número, mas uma força. É o respeito pelas diferentes perspectivas, o pluralismo que enriquece a decisão. Sem Fóruns que abrem espaço para todas as vozes e Ritos que garantem que elas sejam ouvidas, a equidade é apenas uma palavra bonita no relatório anual.
4. Responsabilização (Accountability)
Accountability para mim é até mais ampla do que a sua tradução pura para “Responsabilização” em português. A palavra da moda que poucos entendem de verdade. É assumir as consequências. É prestar contas. Não é só apontar o dedo. É a diligência na função, a independência na decisão. Onde isso se prova? Nos Ritos de Auditoria que são implacáveis. Nos Fóruns de Conselho que cobram resultados e não aceitam desculpas. É a certeza de que cada ato e omissão terá seu peso, e que a prestação de contas será clara, concisa e, acima de tudo, honesta. É o Fórum que não se esconde e o Rito que não perdoa a procrastinação ou aquela clássica indignação sem ação.
5. Sustentabilidade
Não é só plantar árvore, meu amigo. Isso seria muito fácil. É a viabilidade do negócio no longo prazo. É olhar para todos os capitais: financeiro, humano, social, natural, reputacional. Onde essa visão se desenvolve? Nos Fóruns de Estratégia que não se limitam ao curto prazo. Nos Ritos de Monitoramento que acompanham não só o lucro, mas o impacto. É a compreensão de que a empresa não vive isolada, mas em um ecossistema. Sem Fóruns que ampliam o horizonte e Ritos que garantem a perenidade, a sustentabilidade é apenas um custo, não um valor. Ritos de celebração também são importantes na sustentabilidade da visão de longo prazo, pois delimitam conquistas e definem novas metas.
Fugindo da burocracia desnecessária
Mas tem muita interessante na Governança Empresarial. Basta planejar e agir em consonância com as necessidades da empresa, sem exageros e sem passar pano para o descontrole. Algumas dicas que para mim ajudam muito:
Descentralize as decisões menos importantes. Dê voz a quem precisa opinar e que pode agir de forma mais autônoma.
Quando se tratar da montagem de conselhos, entenda bem o papel de um Conselho Consultivo e do Conselho de Administração. Os dois tem papeis diferentes e responsabilidades bem distintas.
Os comitês podem ser de grande valia, desde que tenham autonomia. Comitês que não podem deliberar, talvez não devam existir.
Aplique metodologias ágeis nas reuniões, com pautas bem definidas, divulgadas com antecedência (assim como o material a ser apresentado) e com tempo claro para a definição. Reuniões muito rápidas e periódicas são mais efetivas que reuniões longas e de muito conteúdo.
Registre a reunião, com os resultados e pendências para as próximas reuniões (que devem ser sempre avaliadas no início, antes dos outros assuntos).
Privacidade e Divulgação: Todo o processo de Governança exige clareza no que pode ou não pode ser divulgado. O canal, o fórum, o meio e a abrangência devem ser sempre definidos quando algo precisa ser comunicado. Tomar a decisão de comunicar, sem avaliar esses tópicos, pode gerar necessidade de mais explicações e possível perda de tempo.
Governança é ação, não intenção
Se você concorda com essa minha linha de pensamento, da próxima vez que alguém falar de Governança, lembre-se: não é sobre o que está escrito no manual, mas sobre o que acontece nos Fóruns e nos Ritos. É a arquitetura invisível do controle, seja ele centralizado ou distribuído. A cadência que define o sucesso ou o fracasso. É a ação, não a intenção. E se você não está no Fórum adequado, ou se seus Ritos são frouxos, sinto te dizer... você não tem Governança. Você tem apenas um manual burocrático na mão. E essa perda de tempo, meu caro, custa caro. Muito caro.