À primeira vista, se imagina que para estar no maior evento de Compras Públicas do mundo, eu deveria cruzar o Atlântico ou ir para a América do Norte, certo? Mas não. Ele aconteceu aqui, no nosso Brasil, em Foz do Iguaçu (PR).
Entre os dias 23 e 26 de março de 2026, o 21º Congresso Brasileiro de Pregoeiros e Agentes de Contratação não só quebrou recordes, com direito a certificação do Guinness World Records, como o maior do mundo, diga-se de passagem, como também consolidou o país como referência global em um tema que é a espinha dorsal de qualquer gestão pública séria: a compra.
Estar lá, sentir a energia de mais de 3.000 participantes, ver a "elite" do Direito Administrativo e dos órgãos de controle do Brasil debatendo o futuro, é algo que te faz acreditar: aqui tem um caminho que precisa ser copiado. E o caminho é um só: capacitação, governança e ética. Não tem atalho, não tem jeitinho. Se você quer ver o dinheiro público bem empregado, a base é essa. A discussão aberta sobre os caminhos para a se obter os princípios da economicidade e da transparência, na prática.
E aqui, um parêntese para um reconhecimento mais do que justo: o Grupo Negócios Públicos. Há mais de 20 anos, eles vêm construindo esse evento, acreditando na profissionalização dos agentes públicos quando poucos davam a devida atenção. Esse recorde mundial não é sorte; é o resultado de duas décadas de visão, resiliência e um compromisso inabalável em elevar o nível das contratações públicas no Brasil. Eles não só organizaram o maior congresso do mundo; eles forjaram a maior comunidade de inteligência do planeta nesse setor. Parabéns, Negócios Públicos, por essa jornada e por colocar o Brasil no topo! Em meio a tantas notícias as vezes desanimadoras, essa nos traz muito orgulho.
Mas o evento não foi apenas de festa e celebração. Foi de muito conteúdo e discussões de temas importantes:
O pregoeiro virou estrategista
A Lei nº 14.133/2021, a Nova Lei de Licitações, não veio para enfeitar. Ela mudou o jogo. O pregoeiro, que antes era visto como um mero "executor de rotinas", agora é um gestor estratégico. Ele precisa planejar, mitigar riscos antes mesmo do edital sair, gerenciar conflitos e ter uma segurança jurídica que exige atualização constante. Não é mais só apertar botão; é pensar, é antecipar, é proteger o interesse público.
E sabe o que isso significa? Que a capacitação não é mais um luxo, é uma questão de sobrevivência. Não dá para dominar a nova lei, entender as nuances da jurisprudência do TCU e ainda lidar com a complexidade do mercado sem estar afiado. O congresso deixou isso claro: quem não se profissionaliza, fica para trás. E, no serviço público, ficar para trás significa atrasar o país.
A ética: o valor inegociável
Uma das coisas que mais me encantou nesse evento foi a forma como o valor ético se mostrou inegociável. Não é papo de livro; é a realidade de quem lida com bilhões de reais anualmente. A integridade não é um diferencial, é a premissa. Sem ela, não há governança que se sustente, nem conformidade que resista.
Os pregoeiros e agentes de contratação que estavam lá, buscando conhecimento, trocando experiências, são a prova de que existe uma categoria de servidores públicos que leva a sério o compromisso com a coisa pública. Eles entendem que a ética é a blindagem mais forte contra a corrupção e o desperdício. É o que garante a transparência e a confiança da sociedade.
Tecnologia: aliada ou armadilha?
Claro, a Inteligência Artificial (IA) e o Business Intelligence (BI) foram temas quentes. A tecnologia não é mais acessória; é o núcleo operacional das compras públicas. Automação de tarefas, análise de editais, previsão de tendências... tudo isso está na mesa. Mas o congresso também levantou a lebre: o risco de "alucinações" das IAs, a necessidade de manter o controle humano e a responsabilidade diante de decisões sugeridas por algoritmos. A tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas exige discernimento e, de novo, capacitação para ser bem usada.
O recado para outras categorias: olhem para Foz!
Minha provocação final é para outras categorias de servidores públicos. O que aconteceu em Foz do Iguaçu não foi só um congresso; foi um movimento. Foi a demonstração de que é possível, sim, ter um serviço público de excelência, com profissionais altamente capacitados, éticos e engajados em transformar a contratação pública em um vetor de desenvolvimento nacional sustentável e inovador.
Que o exemplo desses pregoeiros e agentes de contratação sirva de inspiração, não apenas para categorias de servidores públicos, mas para todas as categorias profissionais do Brasil. Que a busca pela capacitação contínua e o reforço dos valores éticos se espalhem por todas as esferas. Porque, no final das contas, a boa gestão não é um milagre; é resultado de gente boa, bem-preparada e com a ética na veia. E Foz do Iguaçu mostrou que temos essa gente aqui, fazendo a diferença.