
Cris Alessi
Cris Alessi é consultora de inovação e transformação digital, conselheira, palestrante, investidora-anjo e autora do livro "Gestão de Startups: desafios e oportunidades”.
Jornadas de Inovação
SaaS, IA e o alerta sobre um novo paradigma de valor
Será que a Inteligência Artificial pode tornar obsoletos os modelos de negócio de software-as-a-service (SaaS) que sustentaram o setor de tecnologia por décadas?
Na semana passada, tratei aqui da relação entre IA e empregabilidade, a partir das demissões anunciadas pela Amazon. Agora, entramos em outra discussão: IA e o mercado financeiro. Um despencar global nas ações de empresas de software e serviços eliminou cerca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, refletindo a crescente preocupação dos investidores com o potencial disruptivo da Inteligência Artificial e sua capacidade de substituir produtos de software tradicionais.
Para quem acompanha apenas os gráficos, a sensação é de pânico. Para quem olha estrategicamente, o cenário é mais complexo — e revelador sobre os rumos da indústria de tecnologia.
O que a IA coloca em xeque não é a receita recorrente do modelo SaaS em si, mas a lógica do software baseado em funcionalidades rígidas, múltiplas interfaces e pouca adaptação ao contexto real do usuário. A Inteligência Artificial inaugura uma nova camada: sistemas mais conversacionais, capazes de aprender, integrar dados e executar tarefas complexas. É isso que o mercado tenta precificar.
Basta olhar para exemplos conhecidos. Grandes plataformas corporativas como SAP, Oracle ou TOTVS foram construídas sobre ERPs robustos, módulos financeiros complexos e contratos de longo prazo. O valor desses sistemas está na estrutura, na segurança, no compliance e na integração entre áreas críticas. O risco de não incorporar IA de forma nativa é tornar-se menos intuitivo e mais lento frente a soluções inteligentes e adaptativas.
No mercado financeiro, essa pressão aparece de forma ainda mais evidente nas plataformas de dados e análise. Ao longo do tempo, relatórios, dashboards e interfaces complexas foram altamente valorizados. Hoje, modelos de IA já conseguem interpretar esses dados, responder perguntas em linguagem natural e gerar cenários e insights em segundos. O dado continua sendo estratégico — o que muda radicalmente é a forma de acesso, análise e tomada de decisão.
É importante destacar que há áreas em que a IA não substitui facilmente o software estruturado. Sistemas ligados à contabilidade regulada, auditoria, compliance bancário e governança continuam exigindo validação humana, rastreabilidade e explicabilidade. Nesses contextos, a IA acelera processos, mas não elimina a necessidade de plataformas robustas e confiáveis.
Por isso, o verdadeiro risco não está em “ser substituído pela IA”, mas em não incorporá-la de forma estratégica. Empresas de software que compreendem profundamente seus dados, seus clientes e o contexto regulatório em que atuam constroem uma vantagem competitiva relevante. Já aquelas que tratam a IA apenas como uma funcionalidade adicional correm o risco de perder relevância, valor de mercado e espaço nas decisões dos clientes.
Estamos vivendo uma transição semelhante à que ocorreu com a chegada da computação em nuvem. Houve medo e volatilidade. No fim, sobreviveram — e cresceram — as empresas que se reinventaram.
Para líderes, conselhos e investidores, a mensagem é clara: não se trata de apostar contra o software, mas de reavaliar modelos de negócio, competências internas e dependências tecnológicas.
E, para as empresas de tecnologia, o recado é direto: a IA não é apenas uma nova funcionalidade, mas um novo paradigma de valor. Mais do que tecnologia, ela representa um novo jeito de pensar processos, decisões, valor e estratégia.
Mais do que uma crise, este é um convite. Um convite para repensar o papel do software em um mundo onde inteligência deixou de ser diferencial — e passou a ser infraestrutura.



