Carreira não é uma linha reta. Tampouco um plano rígido. É, sobretudo, um sistema vivo de decisões, que, combinadas, definem impacto, trajetória e legado.
Essa foi a provocação central do encontro que marcou os cinco anos do
Connect Executive Hub, realizado na ESPM-Tech, em São Paulo. O evento reuniu executivos e conselheiros para uma conversa aberta sobre liderança e desenvolvimento de carreira, com participação de
Liel Miranda, conselheiro e CEO da Alpargatas, e
Tânia Cosentino, conselheira e ex-CEO da Microsoft e da Schneider Electric no Brasil. A mediação foi conduzida por
Silvana Pampu, fundadora do Connect Executive Hub e HR General Manager LATAM da Renault.
Mais do que discutir trajetórias individuais, o painel trouxe uma reflexão mais ampla: como executivos podem conduzir suas carreiras com intenção, consciência e impacto duradouro.
Essa percepção também foi capturada por quem estava na plateia.
“Participar deste encontro foi mais do que ouvir histórias de sucesso, foi um convite à reflexão profunda sobre a natureza da liderança e sobre como construímos trajetórias verdadeiramente transformadoras.” Ana Carolina Martins da Costa, Diretora de RH na Mondelez.
Diversidade como agenda estratégica de liderança
Um dos temas que ganhou destaque durante a conversa foi a importância da diversidade na construção de organizações mais fortes e representativas.
Tânia Cosentino compartilhou como esse tema se tornou parte central de sua atuação, e hoje é uma voz relevante no Brasil sobre o tema, promovendo discussões e iniciativas voltadas à inclusão e à diversidade dentro das organizações.
Liel Miranda trouxe uma percepção semelhante a partir de sua própria trajetória internacional. Ao retornar ao Brasil após anos atuando em Londres, Canada e China relatou um contraste que lhe chamou atenção.
“Uma das coisas que mais me surpreendeu quando voltei ao Brasil foi perceber o quão raro ainda era ver pessoas negras em posições de liderança nas empresas”, comentou Liel que atua como conselheiro e é ativo na causa.
Segundo ele, essa constatação reforçou a importância de tratar diversidade não apenas como discurso, mas como agenda concreta de liderança, capaz de transformar a composição das organizações e ampliar oportunidades.
Liderança também é criar espaço para que outros executem
Outro ponto marcante da conversa foi a discussão sobre o papel do CEO e a forma como líderes organizam seu tempo e suas prioridades.
Ao ser questionado sobre equilíbrio entre carreira e vida pessoal, Liel Miranda trouxe uma perspectiva prática sobre disciplina e foco.
Ele contou que estruturou deliberadamente sua rotina de trabalho em um horário relativamente definido evitando trabalhar à noite ou nos finais de semana sempre que possível. Para ele, essa organização só é possível quando existe um time forte, com autonomia e confiança para executar.
“Liel trouxe uma reflexão potente sobre liderança situacional: a necessidade de ajustar o estilo e a atuação ao momento da organização e à maturidade do time. Compreender o contexto e entregar ao time exatamente o que ele precisa naquele estágio dando direção, ritmo, estabilidade ou transformação. Foi enfático ao destacar que a primeira missão é garantir um time forte. Formar, fortalecer e, quando necessário, fazer as mudanças com agilidade. Performance sustentável começa pelas pessoas certas, no momento certo” Ana Carolina Costa Diretora de RH
“Parte do papel do CEO é justamente construir um time que você confia para executar bem”, explicou.
Esse modelo exige mudança de mentalidade. O desafio deixa de ser executar diretamente e passa a ser tomar as decisões certas.
Essa transição não é simples. Requer sair da operação e atuar em decisões estratégicas, ter disciplina e confiar no time.
Mas essa distância permite algo essencial: ter tempo e clareza mental para pensar nas decisões que realmente importam e ter ambidestria organizacional.
Desafios semelhantes foram trazidos pelo Thiago Marques Diretor de Marketing na Zucchetti Brazil na abertura do evento, ao compartilhar o crescimento acentuado da empresa vindo por aquisições, o que de fato requer uma liderança atuante e estratégica para montar times e gestão da cultura, respeitando o que trouxe a empresa até o momento, mas com olhar de construção do futuro.
Carreira como construção de impacto
A discussão também reforçou uma ideia central: carreiras raramente seguem roteiros perfeitamente planejados.
O que diferencia trajetórias relevantes não é a capacidade de prever cada passo, mas sim tomar decisões consistentes, assumir responsabilidades e aprender com diferentes contextos organizacionais.
Nesse sentido, carreira deixa de ser apenas uma sequência de cargos e passa a ser um processo contínuo de escolhas sobre onde investir talento, energia e propósito.
“Um dos insights mais provocativos foi a importância dos movimentos laterais na carreira. Em um ambiente corporativo que ainda valoriza predominantemente a ascensão vertical. Carreiras não são apenas progressões hierárquicas; são somatórios de vivências que nos desafiam a fazer mais e melhor, e que nos tornam profissionais mais robustos e preparados para contextos complexos.” Ana Carolina
Aprendizado contínuo ao longo da trajetória
O próprio
Connect Executive Hub nasceu com o propósito de fomentar lifelong learning entre executivos; e essa ideia também apareceu com força na conversa.
O que diferencia profissionais ao longo do tempo é a capacidade de continuar aprendendo, questionando e evoluindo.
Cinco anos promovendo reflexão executiva
Ao completar cinco anos de existência, o Connect Executive Hub consolida seu papel como um espaço de troca entre executivos seniores interessados em refletir sobre liderança, carreira e impacto empresarial.
Mais do que networking, o valor de comunidades como essa está na qualidade das conversas e na diversidade de experiências compartilhadas e de orquestrar conexões como ativo relacional.
Em um momento em que o mundo corporativo passa por transformações profundas (tecnológicas, sociais e econômicas), espaços que promovem reflexão estruturada sobre liderança tornam-se cada vez mais relevantes.
Porque, no fim, carreira não é apenas sobre chegar a determinados cargos.
É sobre as decisões que tomamos ao longo do caminho e o impacto que deixamos depois delas.