Anderson Godz
Desde 2016 Anderson Godz é investidor, conselheiro de administração e advisor para nova economia, projetos e governança corporativa. Autor de livro, criou uma comunidade de governança com mais de 12 mil pessoas. É conselheiro da Gazeta do Povo.
Davos 2020
De Guedes a Mike Tyson: lições de Davos sobre as contradições da veloz economia
O que Davos apresentou sobre os desafios de governar a veloz economia? Aquecimento global, Brexit e acordos comerciais são temas recorrentes em fóruns econômicos. Agora, o 50.º encontro anual do Fórum Econômico Mundial, trouxe algumas novidades além das visões abordadas por Greta Thunberg ou pelo príncipe Charles.
Vamos começar pela participação “brazuca”: em
um painel sobre a dominância do dólar no mundo, o ministro da economia Paulo
Guedes comentou a importância de blockchain. Guedes comparou o blockchain ao
lastro do ouro: um balizador mundial para as moedas, possivelmente digital. Ele
citou o economista austríaco libertário Friedrich von Hayek para apontar a
possibilidade de uma moeda global.
um painel sobre a dominância do dólar no mundo, o ministro da economia Paulo
Guedes comentou a importância de blockchain. Guedes comparou o blockchain ao
lastro do ouro: um balizador mundial para as moedas, possivelmente digital. Ele
citou o economista austríaco libertário Friedrich von Hayek para apontar a
possibilidade de uma moeda global.
Guedes ressaltou ainda que os bancos centrais estão “com medo” e “correndo para o blockchain” devido à confiança trazida pela tecnologia – para ele, “segurança” é a palavra-chave quando falamos sobre o tema. Ainda segundo Guedes, se os bancos centrais tomarem a frente do blockchain, poderão preservar o papel do dinheiro como algo “público”.
A fala do ministro é interessante por indicar que o governo brasileiro está, de alguma forma, atento à questão; governos do mundo todo precisam compreender que estreitar a relação com essa tecnologia pode ser crucial, afinal, está em jogo o monopólio monetário em um futuro apoiado em blockchain – ao menos no futuro em que a computação quântica não consiga desafiá-lo.
Por outro lado, houve espaço também para críticas:
Riccardo Spagni, um dos principais colaboradores do desenvolvimento da Monero,
criptomoeda criada em 2014 com o objetivo de ser não rastreável, afirmou que
líderes globais ainda estão tentando policiar e regular criptomoedas,
mantendo-as dentro das mesmas estruturas que sempre tiveram. Segundo ele, os
“donos da bola” relutam em mudar.
Riccardo Spagni, um dos principais colaboradores do desenvolvimento da Monero,
criptomoeda criada em 2014 com o objetivo de ser não rastreável, afirmou que
líderes globais ainda estão tentando policiar e regular criptomoedas,
mantendo-as dentro das mesmas estruturas que sempre tiveram. Segundo ele, os
“donos da bola” relutam em mudar.
Já em outra discussão, sobre saúde digital,
aplicativos de serviços e mudanças nas dinâmicas de trabalho, o questionado
escritor Yuval Harari, autor do best-seller “Sapiens: uma breve história da
humanidade”, destacou que é essencial repensar a nossa abordagem sobre o que é
emprego e mercado de trabalho. Até aqui, nada novo no front. Mas Harari, ao seu
estilo generalista, completa:
aplicativos de serviços e mudanças nas dinâmicas de trabalho, o questionado
escritor Yuval Harari, autor do best-seller “Sapiens: uma breve história da
humanidade”, destacou que é essencial repensar a nossa abordagem sobre o que é
emprego e mercado de trabalho. Até aqui, nada novo no front. Mas Harari, ao seu
estilo generalista, completa:
“Se tudo isso se trata de mágica computacional, então há mágicos computacionais que deveriam ser recompensados e receber o lucro. Mas se há um grande exército invisível que está fazendo uma grande parte do trabalho, então eles também devem ser recompensados”.Yuval Harari
De fato, o apontamento é válido para repensar as relações de trabalho, algo pertinente para as indústrias que até 2025 terão robôs executando metade de todas as funções produtivas.
Davos é um espaço para assuntos delicados, do blockchain até as novas relações de trabalho. Mas tão difícil quanto decifrar uma criptomoeda é compreender empresas familiares. Um painel chamado “Empresa familiar: relíquia ou modelo?” afirmou que lucro não pode ser a única razão de existir de uma companhia e que ninguém constrói uma empresa de sucesso focando em lucro a curto prazo.
Mudanças velozes também trazem descompassos na
caminhada, como destacado ao mostrar que a regulação caminha mais devagar que a
tecnologia – mas ninguém quer voltar atrás. No cotidiano das empresas, o
descompasso também está presente: Davos mostrou ainda que os CEOs empregam
metodologia agile para transformação, mas gastam mais tempo definindo regras
(ou seja, burocratizando o agile) do que testando ou se envolvendo – enfim, de
fato, fazendo agile.
caminhada, como destacado ao mostrar que a regulação caminha mais devagar que a
tecnologia – mas ninguém quer voltar atrás. No cotidiano das empresas, o
descompasso também está presente: Davos mostrou ainda que os CEOs empregam
metodologia agile para transformação, mas gastam mais tempo definindo regras
(ou seja, burocratizando o agile) do que testando ou se envolvendo – enfim, de
fato, fazendo agile.
As discussões levantaram ainda uma contradição urgente em tempos de big data: há muito temor de uma “ditadura” dos dados, com privacidade e tomadas de decisão por algoritmos em vez de pessoas. Medos à parte, o fórum reforçou algo que não podemos esquecer: os dados pertencem às pessoas.
Em Davos, os olhos foram, sim, voltados para contradições e caminhos, com palpites de todos os lados e correntes; sejam as pautas de Greta, Harari ou mesmo de Guedes, no fim do dia, algumas lições podem ser tiradas. Mas, como diz a famosa frase do boxeador Mike Tyson, também citada no Fórum, “todo mundo tem um plano até receber um soco na cara”.



